Início / Geral
Geral

Professor robô cancelado: escola nos EUA barra projeto após descobrir que fabricante também faz robôs sexuais

Por bitcompilado30/07/202647 leituras
Robô humanoide da Realbotix conversando com visitantes em uma feira de tecnologia

Um distrito escolar do interior de Nova York pagou quase US$ 60 mil por uma robô humanoide chamada "Sally" para ajudar em aulas de tecnologia. O projeto foi barrado depois que pais, professores e autoridades descobriram que a fabricante tem uma empresa-irmã que produz bonecas e robôs sexuais.

Professor robô cancelado virou assunto nos Estados Unidos. Um distrito escolar de uma região rural do interior do estado de Nova York decidiu suspender o plano de colocar uma robô humanoide movida a inteligência artificial dentro da sala de aula. A pausa veio depois de uma onda de críticas de professores, pais, moradores e autoridades educacionais — e um dos pontos mais comentados foi a descoberta de que a fabricante da robô tem laços com uma empresa que produz robôs sexuais hiper-realistas.

O caso aconteceu no Salamanca City Central School District, uma pequena comunidade localizada na reserva da Nação Seneca de Índios, perto do rio Allegheny e da divisa com a Pensilvânia. O conselho do distrito havia aprovado a compra de quase US$ 60 mil de uma robô fabricada pela Realbotix, empresa sediada em Las Vegas.

Quem é a "Sally"

A robô, apelidada de "Sally" pela comunidade antes mesmo de chegar, é uma unidade fixa, do tamanho de uma pessoa, com longos cabelos escuros. Ela consegue mexer os braços e as mãos, mas tem as pernas sem funcionamento. A ideia do distrito era usá-la para enriquecer o aprendizado de alunos do ensino médio interessados em robótica e em carreiras de tecnologia.

Segundo o superintendente Mark Beehler, a proposta era que a robô funcionasse como uma espécie de tutora técnica. "Está tendo dificuldade para programar uma placa Arduino? Nem sabe o que é uma placa Arduino? Pergunte à Sally e ela pode explicar", exemplificou. Os alunos também aprenderiam, na prática, como a robô é mantida, atualizada e como resolver problemas técnicos nela.

A "Sally" já vinha programada com o WozEd, um currículo educacional criado por Steve Wozniak, cofundador da Apple, que o distrito já utilizava — o que, segundo Beehler, tornou a Realbotix uma escolha natural. Ele foi apresentado à empresa por um ex-colega.

Professor robô cancelado: por que o projeto virou polêmica

À medida que a notícia se espalhou na pequena comunidade, dois tipos de preocupação ganharam força.

A primeira foi sobre privacidade de dados: pais e professores queriam saber como as informações pessoais dos alunos seriam usadas e protegidas.

A segunda, e mais barulhenta, foi a ligação da fabricante com o mercado adulto. A Realbotix LLC — que diz focar em aplicações de saúde, educação e outros usos comerciais não adultos — tem uma empresa-irmã, a Intima LLC, que detém participação na RealDoll, tradicional fabricante de bonecas sexuais, incluindo uma linha de modelos com IA anunciados como "o robô sexual mais avançado do mundo".

O sindicato dos professores, o New York State United Teachers (NYSUT), foi direto ao ponto. "Um robô construído por uma empresa associada a bonecas sexuais não tem lugar nas nossas salas de aula", afirmou a presidente do sindicato, Melinda Person. Para ela, o projeto também representava um primeiro passo em direção à substituição de professores humanos por máquinas. "Nossos alunos não precisam de robôs. Eles precisam de relacionamentos reais com adultos que se importam."

O que disseram as autoridades

A comissária de Educação do estado de Nova York, Betty Rosa, afirmou que continuava preocupada com o papel da robô em sala de aula mesmo depois de sua equipe se reunir com representantes do distrito. Em carta enviada ao distrito, ela apontou uma contradição: embora o distrito garantisse que a robô não teria papel em ministrar aulas, uma apresentação recente ao conselho a descrevia como uma "plataforma de tutoria". Rosa também reforçou as dúvidas dos moradores sobre quais proteções de privacidade e segurança de dados estariam em vigor.

Diante da pressão, o distrito publicou um comunicado em sua página no Facebook informando que o projeto-piloto com a Realbotix estava temporariamente suspenso, enquanto trabalha em "acordos aprimorados de privacidade de dados dos alunos" com o Departamento de Educação do estado e mantém o diálogo com a comunidade.

A defesa do distrito e da fabricante

Beehler fez questão de dizer que o piloto — que também incluía um assistente virtual de professor com IA e um programa de tutoria em casa — não tinha nada a ver com substituir funcionários. "Não há maneira possível de um robô substituir um humano em uma escola. Mesmo que fosse possível, de forma alguma seria do interesse dos alunos. Ensinar é um processo de ser humano para ser humano", afirmou.

O distrito também detalhou uma série de salvaguardas. Segundo as publicações da escola, a "Sally" não coletaria informações pessoais dos alunos, não gravaria áudio ou vídeo das interações e não enviaria dados de volta para a Realbotix. Todas as informações ficariam armazenadas localmente, e a robô consumiria mais ou menos a mesma energia de um notebook. Ela também foi programada para evitar temas inapropriados como sexo, violência e apostas, e não teria acesso à internet aberta nem a serviços de IA generativa não verificados.

A Realbotix, por sua vez, rebateu a ideia de que a "Sally" seria apenas uma boneca sexual readaptada, afirmando tratar-se de uma "unidade educacional recém-fabricada e desenvolvida especificamente para esse fim", sem hardware modificado. A empresa também garantiu que a autenticação dos alunos passaria pelos sistemas já existentes do distrito e que qualquer informação vinculada a estudantes ficaria criptografada e sob controle da escola. Sobre a relação com a fabricante de produtos adultos, a companhia afirmou que "Realbotix LLC e Intima LLC têm ofertas de produtos diferentes, sem qualquer cruzamento", mantendo gestão, funcionários, instalações e operações separadas.

Um debate que vai além de Salamanca

Beehler argumentou que iniciativas como essa são justamente importantes para distritos isolados como o de Salamanca. "Na maioria dos casos, nossos alunos precisam viajar de 1 a 2 horas para ter a oportunidade de ver tecnologia emergente", disse. Para ele, a robô ajudaria a "nivelar o jogo" e a motivar os estudantes a seguir carreiras em robótica, IA e áreas de STEAM.

O episódio não é isolado. No ano passado, uma escola charter de San Diego colocou em operação dois robôs com IA comprados da Engineered Arts, empresa de robótica do Reino Unido, por US$ 500 mil.

Ainda assim, parte dos moradores segue não convencida. Joplin Ficek, que se formou na Salamanca High School em 2024 e hoje trabalha em uma creche, resumiu o ceticismo local. "Eles só precisam contratar mais pessoas dispostas a se esforçar pelas crianças. Elas precisam de mais interação com as crianças do que ter algum robô criando os nossos filhos."

Por enquanto, "Sally" permanece na espera — e o caso vira mais um capítulo do debate sobre até onde a inteligência artificial deve entrar nas escolas, e sob quais garantias.

Perguntas frequentes

Onde aconteceu o caso do professor-robô?
No Salamanca City Central School District, um distrito escolar de uma região rural do interior do estado de Nova York, nos Estados Unidos, localizado na reserva da Nação Seneca de Índios, perto da divisa com a Pensilvânia.
Por que o projeto foi suspenso?
Por uma combinação de fatores: preocupações com privacidade e segurança dos dados dos alunos, resistência do sindicato dos professores e a repercussão de que a fabricante da robô, a Realbotix, tem uma empresa-irmã ligada à produção de bonecas e robôs sexuais. O distrito afirmou que a pausa é temporária, enquanto negocia acordos de privacidade com o estado.
A robô "Sally" era realmente uma boneca sexual adaptada?
Segundo a Realbotix, não. A empresa afirma que a "Sally" é uma unidade educacional recém-fabricada e feita especificamente para esse fim, sem hardware modificado. A fabricante diz que a divisão adulta (Intima LLC/RealDoll) e a divisão educacional (Realbotix LLC) operam de forma independente.
Quanto custou a robô?
O conselho do distrito aprovou uma compra de quase US$ 60 mil pela robô da Realbotix.
A robô substituiria os professores?
O superintendente Mark Beehler negou. Segundo ele, a proposta era usar a robô como apoio técnico e tutoria em áreas de tecnologia, e não substituir educadores humanos. O sindicato dos professores, porém, via o projeto como um possível primeiro passo nessa direção.
#inteligência artificial#robótica#educação#Realbotix#privacidade de dados

Ofertas quentes agora

Continue lendo