Um distrito escolar do interior de Nova York pagou quase US$ 60 mil por uma robô humanoide chamada "Sally" para ajudar em aulas de tecnologia. O projeto foi barrado depois que pais, professores e autoridades descobriram que a fabricante tem uma empresa-irmã que produz bonecas e robôs sexuais.
Professor robô cancelado virou assunto nos Estados Unidos. Um distrito escolar de uma região rural do interior do estado de Nova York decidiu suspender o plano de colocar uma robô humanoide movida a inteligência artificial dentro da sala de aula. A pausa veio depois de uma onda de críticas de professores, pais, moradores e autoridades educacionais — e um dos pontos mais comentados foi a descoberta de que a fabricante da robô tem laços com uma empresa que produz robôs sexuais hiper-realistas.
O caso aconteceu no Salamanca City Central School District, uma pequena comunidade localizada na reserva da Nação Seneca de Índios, perto do rio Allegheny e da divisa com a Pensilvânia. O conselho do distrito havia aprovado a compra de quase US$ 60 mil de uma robô fabricada pela Realbotix, empresa sediada em Las Vegas.
A robô, apelidada de "Sally" pela comunidade antes mesmo de chegar, é uma unidade fixa, do tamanho de uma pessoa, com longos cabelos escuros. Ela consegue mexer os braços e as mãos, mas tem as pernas sem funcionamento. A ideia do distrito era usá-la para enriquecer o aprendizado de alunos do ensino médio interessados em robótica e em carreiras de tecnologia.
Segundo o superintendente Mark Beehler, a proposta era que a robô funcionasse como uma espécie de tutora técnica. "Está tendo dificuldade para programar uma placa Arduino? Nem sabe o que é uma placa Arduino? Pergunte à Sally e ela pode explicar", exemplificou. Os alunos também aprenderiam, na prática, como a robô é mantida, atualizada e como resolver problemas técnicos nela.
A "Sally" já vinha programada com o WozEd, um currículo educacional criado por Steve Wozniak, cofundador da Apple, que o distrito já utilizava — o que, segundo Beehler, tornou a Realbotix uma escolha natural. Ele foi apresentado à empresa por um ex-colega.
À medida que a notícia se espalhou na pequena comunidade, dois tipos de preocupação ganharam força.
A primeira foi sobre privacidade de dados: pais e professores queriam saber como as informações pessoais dos alunos seriam usadas e protegidas.
A segunda, e mais barulhenta, foi a ligação da fabricante com o mercado adulto. A Realbotix LLC — que diz focar em aplicações de saúde, educação e outros usos comerciais não adultos — tem uma empresa-irmã, a Intima LLC, que detém participação na RealDoll, tradicional fabricante de bonecas sexuais, incluindo uma linha de modelos com IA anunciados como "o robô sexual mais avançado do mundo".
O sindicato dos professores, o New York State United Teachers (NYSUT), foi direto ao ponto. "Um robô construído por uma empresa associada a bonecas sexuais não tem lugar nas nossas salas de aula", afirmou a presidente do sindicato, Melinda Person. Para ela, o projeto também representava um primeiro passo em direção à substituição de professores humanos por máquinas. "Nossos alunos não precisam de robôs. Eles precisam de relacionamentos reais com adultos que se importam."
A comissária de Educação do estado de Nova York, Betty Rosa, afirmou que continuava preocupada com o papel da robô em sala de aula mesmo depois de sua equipe se reunir com representantes do distrito. Em carta enviada ao distrito, ela apontou uma contradição: embora o distrito garantisse que a robô não teria papel em ministrar aulas, uma apresentação recente ao conselho a descrevia como uma "plataforma de tutoria". Rosa também reforçou as dúvidas dos moradores sobre quais proteções de privacidade e segurança de dados estariam em vigor.
Diante da pressão, o distrito publicou um comunicado em sua página no Facebook informando que o projeto-piloto com a Realbotix estava temporariamente suspenso, enquanto trabalha em "acordos aprimorados de privacidade de dados dos alunos" com o Departamento de Educação do estado e mantém o diálogo com a comunidade.
Beehler fez questão de dizer que o piloto — que também incluía um assistente virtual de professor com IA e um programa de tutoria em casa — não tinha nada a ver com substituir funcionários. "Não há maneira possível de um robô substituir um humano em uma escola. Mesmo que fosse possível, de forma alguma seria do interesse dos alunos. Ensinar é um processo de ser humano para ser humano", afirmou.
O distrito também detalhou uma série de salvaguardas. Segundo as publicações da escola, a "Sally" não coletaria informações pessoais dos alunos, não gravaria áudio ou vídeo das interações e não enviaria dados de volta para a Realbotix. Todas as informações ficariam armazenadas localmente, e a robô consumiria mais ou menos a mesma energia de um notebook. Ela também foi programada para evitar temas inapropriados como sexo, violência e apostas, e não teria acesso à internet aberta nem a serviços de IA generativa não verificados.
A Realbotix, por sua vez, rebateu a ideia de que a "Sally" seria apenas uma boneca sexual readaptada, afirmando tratar-se de uma "unidade educacional recém-fabricada e desenvolvida especificamente para esse fim", sem hardware modificado. A empresa também garantiu que a autenticação dos alunos passaria pelos sistemas já existentes do distrito e que qualquer informação vinculada a estudantes ficaria criptografada e sob controle da escola. Sobre a relação com a fabricante de produtos adultos, a companhia afirmou que "Realbotix LLC e Intima LLC têm ofertas de produtos diferentes, sem qualquer cruzamento", mantendo gestão, funcionários, instalações e operações separadas.
Beehler argumentou que iniciativas como essa são justamente importantes para distritos isolados como o de Salamanca. "Na maioria dos casos, nossos alunos precisam viajar de 1 a 2 horas para ter a oportunidade de ver tecnologia emergente", disse. Para ele, a robô ajudaria a "nivelar o jogo" e a motivar os estudantes a seguir carreiras em robótica, IA e áreas de STEAM.
O episódio não é isolado. No ano passado, uma escola charter de San Diego colocou em operação dois robôs com IA comprados da Engineered Arts, empresa de robótica do Reino Unido, por US$ 500 mil.
Ainda assim, parte dos moradores segue não convencida. Joplin Ficek, que se formou na Salamanca High School em 2024 e hoje trabalha em uma creche, resumiu o ceticismo local. "Eles só precisam contratar mais pessoas dispostas a se esforçar pelas crianças. Elas precisam de mais interação com as crianças do que ter algum robô criando os nossos filhos."
Por enquanto, "Sally" permanece na espera — e o caso vira mais um capítulo do debate sobre até onde a inteligência artificial deve entrar nas escolas, e sob quais garantias.